Ilhabela (SP), o maior cemitério de navios da costa brasileira.

Conhecida por suas praias e paisagens naturais, Ilhabela, no litoral norte paulista, também guarda uma história marcada por acidentes e tragédias marítimas. Ao longo de mais de um século, embarcações de diferentes nacionalidades naufragaram nas proximidades da ilha, deixando registros de episódios que marcaram a navegação na região.

A presença de costões rochosos, lajes submersas e pedras próximas à superfície sempre exigiu atenção dos navegadores. Antes da utilização dos modernos equipamentos de orientação, a navegação dependia de instrumentos mais limitados e da experiência das tripulações. Em determinadas condições meteorológicas, a neblina e os ventos fortes aumentavam as dificuldades para identificar os perigos existentes ao longo da costa.

Entre os primeiros naufrágios conhecidos estão os dos navios ingleses Crest, em 1882, e Dart, em 1884. O Crest afundou na região dos Borrifos, transportando uma carga de café com destino a Nova York. Dois anos depois, o Dart também naufragou nas proximidades da ilha, em um período no qual a navegação comercial pelo litoral paulista ainda enfrentava dificuldades de orientação e segurança.

No início do século XX, outros acidentes ganharam destaque. Em 1905, o vapor Atílio naufragou após colidir com o veleiro Altair. Em outubro de 1908, o navio inglês Velásquez encalhou na região da Ponta da Sela. O rebocador Milton foi enviado para prestar socorro, e os passageiros e tripulantes foram resgatados.

Um dos acidentes mais graves ocorreu em 3 de outubro de 1913, quando o rebocador Guarany, da Marinha do Brasil, colidiu com o vapor Borborema nas proximidades da Ponta do Boi. A embarcação militar afundou, provocando a morte de 28 pessoas entre as 51 que estavam a bordo. O episódio teve grande repercussão nacional.

Três anos depois, em 5 de março de 1916, Ilhabela foi cenário de uma das maiores tragédias marítimas da história brasileira. O transatlântico espanhol Príncipe de Astúrias, que havia partido de Barcelona com destino a Buenos Aires, naufragou após colidir com os costões da Ponta da Pirabura. A bordo estavam 588 pessoas oficialmente registradas. Desse total, 445 morreram e 143 sobreviveram.

Ao longo dos anos, surgiram relatos sobre a possível presença de imigrantes clandestinos que viajavam sem registro, o que alimentou estimativas de que o número real de vítimas poderia ter sido maior. Entretanto, não existe comprovação documental que permita estabelecer um total superior ao número oficial. A dimensão da tragédia fez com que o Príncipe de Astúrias passasse a ser conhecido popularmente como o Titanic brasileiro.

Outros naufrágios também foram registrados nas décadas seguintes. Em 1919, o navio Therezina, anteriormente chamado Siegmund, encalhou na região entre a Ponta da Sela e a Ponta da Sepituba. Seus 52 tripulantes foram resgatados. Em 1920, o cargueiro Aymoré também naufragou após enfrentar uma tempestade nas proximidades da Ponta do Ribeirão. Em 1929, foi a vez do veleiro São Janeco, que afundou na região dos Borrifos.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os perigos da navegação ganharam uma dimensão ainda maior. Submarinos alemães passaram a operar no Atlântico Sul e atacaram embarcações que navegavam pela costa brasileira. Em 3 de julho de 1943, o cargueiro norte-americano Elihu B. Washburne foi torpedeado pelo submarino U-513 nas proximidades de Alcatrazes. Poucos meses depois, em 23 de outubro, o navio brasileiro Campos foi afundado pelo U-170, provocando a morte de 12 pessoas.

Mesmo após o fim da guerra, acidentes continuaram sendo registrados na região. Entre eles está o naufrágio do pesqueiro Uruçânia, associado à região dos Frades, em um episódio ocorrido por volta de 1960 ou 1961, conforme a divergência entre os registros consultados. Em 1959, o cargueiro espanhol Concar também havia encalhado na região. Décadas depois, em 1991, o petroleiro Alina P. sofreu uma explosão seguida de incêndio em Barequeçaba, no Canal de São Sebastião.

A história marítima de Ilhabela reúne naufrágios de embarcações comerciais, acidentes envolvendo navios militares e ataques ocorridos durante a Segunda Guerra Mundial. Seus registros ajudam a compreender as dificuldades enfrentadas pelos navegadores e as tragédias que marcaram a navegação no litoral paulista.

Foto: Navio cargueiro espanhol Concar encalhado sobre as pedras nas proximidades da Ponta de Piraçununga, em Ilhabela (SP), em 1959.
Imagem: Reprodução Internet