O naufrágio do Príncipe de Astúrias: o "Titanic brasileiro" que afundou em Ilhabela SP.

Na madrugada de 5 de março de 1916, uma tragédia marcou para sempre a história do litoral norte de São Paulo. O transatlântico espanhol Príncipe de Astúrias, considerado uma das embarcações mais modernas da época, naufragou ao se chocar contra uma formação de corais submersos na Ponta da Pirabura, em Ilhabela (SP). O acidente, que deixou oficialmente 477 mortos, é até hoje o maior desastre marítimo registrado na costa do Brasil.

Construído na Escócia em 1914, o Príncipe de Astúrias possuía um projeto moderno, com duplo casco e tecnologia semelhante à usada no Titanic. Com capacidade para até 1.890 pessoas, entre passageiros e tripulantes, o navio fazia a rota entre Barcelona e Buenos Aires, com escalas em Cádiz, Ilhas Canárias, Rio de Janeiro, Santos e Montevidéu. Estava em sua sétima travessia quando naufragou.

Naquela madrugada chuvosa de Carnaval, enquanto passageiros ainda dormiam e outros festejavam no salão de baile, o capitão José Lotina decidiu alterar a rota devido à baixa visibilidade. Sem saber, conduziu a embarcação para uma área de corais. Às 4h da manhã, o navio colidiu com os recifes submersos, abrindo uma fenda de 40 metros no casco. A água invadiu rapidamente a sala de máquinas, duas caldeiras explodiram e o navio afundou em menos de cinco minutos, pegando os ocupantes de surpresa.

O número oficial de mortos é 477, mas pesquisadores apontam que o total real pode ter sido muito maior. Naquela época, vivia-se o auge da Primeira Guerra Mundial, e é provável que dezenas de refugiados tenham embarcado clandestinamente no porão, tentando escapar da Europa devastada. Estima-se que cerca de mil pessoas estivessem a bordo.

Entre as cargas transportadas estavam 12 estátuas de bronze, encomendadas pela Espanha para compor um monumento no Parque Palermo, em Buenos Aires. Avaliadas em 40 mil libras-ouro, as esculturas foram submersas com o naufrágio. Em 1990, uma das estátuas foi encontrada por mergulhadores e atualmente está exposta no Serviço de Documentação Geral da Marinha, no Primeiro Distrito Naval, no Rio de Janeiro.

Das outras 11 estátuas, somente pedaços foram recuperados. Há ainda relatos não confirmados sobre uma suposta carga de 11 toneladas de ouro a bordo, que jamais foi encontrada. Os destroços do Príncipe de Astúrias repousam a cerca de 30 metros de profundidade, ao lado da Ponta da Pirabura. Para evitar riscos à navegação, o que restou da embarcação foi dinamitado em 1989. Algumas relíquias, como talheres, pratos e até bonecas infantis, foram recuperadas ao longo das décadas por moradores e mergulhadores.

O navio inglês Vegas, que navegava na mesma rota, realizou os primeiros resgates de sobreviventes, muitos dos quais conseguiram se salvar agarrados a pedaços de madeira ou nadando até a costa. Os corpos se espalharam pelo litoral norte paulista e foram enterrados nas praias da Serraria, Castelhanos e Caveira. Curiosamente, o nome “Caveira” só surgiu após o desastre, em alusão à quantidade de vítimas sepultadas ali.

O corpo do capitão José Lotina nunca foi encontrado, assim como o de seu primeiro oficial, Antônio Salazar Linas. A ausência de registros e o número de sepultamentos, muito superior ao total oficial de passageiros, sustentam até hoje o mistério em torno do verdadeiro número de mortos. Mais de um século depois, a tragédia do Príncipe de Astúrias segue cercada por perguntas sem resposta.

Foto: Viajem inaugural do navio Príncipe de Astúrias, em 1914. 

Foto: Acervo O Globo

Hall de um dos andares do navio Príncipe de Astúrias. 
Foto: Acervo O Globo.
Estátua encontrada depois do naufrágio do navio Príncipe de Astúrias. Foto: Reprodução.
Capitão do navio Príncipe de Astúrias, José Lotina. 
Foto: Créditos: acervo/divulgação.
Escada do navio príncipe de Astúrias. 
Foto: Acervo Globo.
Ponta da Pirabura em Ilhabela, onde o navio Príncipe de Astúrias naufragou. 
Foto: Reprodução.
Jornais da época divulgaram o maior naufrágio na costa brasileira. 
Foto: Reprodução/Blog Jeannis Platon.
Boneca encontrada entre as relíquias do navio Príncipe de Astúrias. 
Foto: Créditos: acervo Globo.

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