Atualmente conhecida como Ilhabela, a Ilha de São Sebastião está localizada no litoral norte paulista e teve importância estratégica nas navegações pela costa brasileira durante o período colonial. Suas características geográficas e a posição protegida do Canal de São Sebastião ofereciam condições favoráveis para o abrigo e o abastecimento de embarcações. Essas características também despertaram o interesse de navegadores estrangeiros, entre eles piratas e corsários que percorriam o litoral em busca de oportunidades de saque e comércio.
Desde o início da colonização portuguesa, a presença de embarcações estrangeiras representava um desafio para o controle da costa. Entre 1516 e 1528, a Coroa portuguesa organizou três expedições guarda-costas, comandadas por Cristóvão Jacques, com o objetivo de combater o contrabando, proteger as feitorias e impedir a atuação de estrangeiros nas terras reivindicadas por Portugal. Apesar dessas iniciativas, a extensão do litoral dificultava a fiscalização e permitia a continuidade das incursões.
No final do século XVI, a região passou a integrar as rotas de navegadores e corsários europeus. Um dos nomes mais conhecidos foi o inglês Thomas Cavendish, que esteve na Ilha de São Sebastião em 1591, antes de atacar a Vila de Santos na noite de Natal daquele ano. A invasão resultou no saque e na destruição de parte do povoado. A passagem de Cavendish pelo litoral paulista também contribuiu para o surgimento de histórias sobre riquezas que teriam sido escondidas na região.
A presença de embarcações estrangeiras e os ataques às povoações costeiras evidenciaram a necessidade de reforçar a defesa do Canal de São Sebastião. Ao longo dos séculos XVIII e XIX, foi organizado um sistema de oito fortificações distribuídas entre as duas margens do canal, quatro delas na Ilha de São Sebastião: os fortes de Ponta das Canas, Rabo Azedo, Feiticeira e Vila Bela da Princesa. A construção do Forte de Ponta das Canas ocorreu entre 1766 e 1774, enquanto as obras dos fortes do Rabo Azedo e da Feiticeira começaram em 1819.
Essas estruturas tinham a função de proteger os acessos ao canal e as povoações próximas contra possíveis incursões de embarcações inimigas. Embora boa parte das antigas construções tenha desaparecido, suas ruínas e os canhões históricos preservados na região ajudam a compreender a importância militar que o litoral norte paulista adquiriu naquele período.
As histórias de piratas e riquezas escondidas também alimentaram o imaginário popular de Ilhabela. Uma das mais conhecidas envolve o engenheiro belga Paul Ferdinand Thiry, radicado no Brasil, que dedicou aproximadamente quatro décadas à procura do lendário Tesouro de Lima. Convencido de que parte dessa riqueza poderia estar escondida no Saco do Sombrio, Thiry realizou longas investigações na região. Morreu em 1979 sem encontrar o tesouro, cuja existência e localização nunca foram comprovadas.
Entre registros históricos, antigas fortificações e histórias transmitidas ao longo das gerações, Ilhabela preserva uma trajetória marcada pelas navegações, disputas pelo controle do litoral e pela presença de corsários estrangeiros. As histórias de tesouros ainda despertam a curiosidade de pesquisadores e aventureiros, mantendo viva uma das narrativas mais conhecidas do litoral paulista.
