A dublagem no Brasil é fruto de decisões políticas e de um sólido processo cultural. Em 1962, um decreto do presidente Jânio Quadros tornou obrigatória a dublagem em português de filmes estrangeiros exibidos na televisão, consolidando uma prática que já vinha sendo desenvolvida desde décadas anteriores.
O primeiro marco da dublagem brasileira ocorreu em 1938, com a versão em português de Branca de Neve e os Sete Anões. A partir dali, o público passou a criar uma relação afetiva com personagens e atores estrangeiros, muitas vezes reconhecidos mais pela voz nacional do que pela original. A dublagem deixou de ser apenas técnica e se transformou em linguagem cultural acessível e popular.
Foi nesse contexto que surgiram grandes nomes da dublagem brasileira, considerada uma das melhores do mundo. Com o passar do tempo, essas vozes que ajudaram a construir a memória audiovisual do país vêm, pouco a pouco, se despedindo. Nesta semana, uma delas se calou.
Morreu na quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026, aos 72 anos, o ator, dublador e diretor de dublagem Ricardo Schnetzer. Ele imortalizou vozes de astros como Tom Cruise, Al Pacino, Nicolas Cage e Richard Gere, além de personagens marcantes do cinema, da televisão e da animação. A causa da morte foi a esclerose lateral amiotrófica, doença degenerativa que compromete o sistema nervoso e as funções motoras.
Formado pela atual Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Schnetzer iniciou sua trajetória na dublagem em 1975. Atuou como diretor por 15 anos nos estúdios Herbert Richers e também trabalhou na Audio Corp, Bluebird e Alcateia, participando de produções de grande alcance no mercado audiovisual.
Na animação, deu voz a personagens como Hank, de Caverna do Dragão, Capitão Planeta, Mestre Macaco, de Kung Fu Panda, Benson, de Apenas um Show, além de personagens em Jovens Titãs, Madagascar e Saint Seiya: The Lost Canvas. Também foi o dublador oficial do ator mexicano Fernando Colunga na novela A Usurpadora, exibida no Brasil em 1999.
Em janeiro de 2026, tornou público o diagnóstico de esclerose lateral amiotrófica e pediu apoio para custear o tratamento. Sua morte representa a perda de uma voz que acompanhou gerações e ajudou a construir a identidade cultural da dublagem brasileira.
Por Evandro Felix Marcondes.
Imagem: E.F.M.
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