Há mais de três décadas, o Brasil viveu um dos momentos mais marcantes de sua história política. No dia 12 de outubro de 1992, tarde de feriado nacional, ocorreu o acidente que tirou a vida de Ulysses Silveira Guimarães. Foi apenas na manhã do dia seguinte, 13 de outubro, que o país amanheceu em choque, tomado pela notícia que se espalhou rapidamente e transformou-se em comoção nacional.
Aos 76 anos, um dos maiores símbolos da redemocratização brasileira deixava o Rio de Janeiro rumo a São Paulo, estado que representou por 11 mandatos consecutivos na Câmara dos Deputados, quando o helicóptero em que viajava caiu no mar, na região de Angra dos Reis, litoral sul fluminense. O tempo estava instável, com chuva forte e visibilidade baixa, condições apontadas como determinantes para a tragédia, ocorrida poucos minutos após a decolagem.
Com ele morreram sua esposa, Ida de Almeida Guimarães, carinhosamente chamada de Dona Mora; o ex-senador e ex-ministro Severo Gomes; sua esposa, Henriqueta Gomes; e o piloto da aeronave. As buscas foram iniciadas ainda no dia 12 por equipes da Marinha, da Força Aérea Brasileira e do Corpo de Bombeiros, mas ganharam dimensão nacional na manhã do dia 13, quando as autoridades passaram a tratar oficialmente a morte do líder político como praticamente confirmada.
Ao longo dos dias seguintes, parte das vítimas teve os corpos localizados durante as operações de busca. O corpo de Ulysses Guimarães, porém, jamais foi encontrado. As águas da Costa Verde transformaram-se, simbolicamente, em seu último memorial.
Última viagem: a decisão que antecedeu a tragédia.
Ulysses completara 76 anos havia apenas seis dias, em 6 de outubro daquele mesmo ano. Cumpria compromissos políticos no Rio de Janeiro e precisava retornar a São Paulo para reuniões com lideranças e representantes do governo estadual. Inicialmente, a viagem seria feita por terra, mas a agenda apertada levou à mudança para o transporte aéreo, apesar das condições meteorológicas desfavoráveis registradas na região.
Testemunhas que estavam em ilhas próximas relataram ter ouvido um forte estrondo por volta das 17h30 do dia 12 e viram a aeronave perder altitude rapidamente antes de desaparecer entre nuvens carregadas e chuva intensa. As operações de busca percorreram uma extensa área do litoral sul fluminense e mobilizaram embarcações, aeronaves e equipes de resgate durante vários dias.
A confirmação oficial da tragédia foi anunciada no plenário da Câmara dos Deputados pelo então presidente da Casa, Ibsen Pinheiro, que classificou Ulysses como uma das maiores vozes da liberdade e da democracia brasileira.
Uma vida dedicada à democracia.
Nascido em Rio Claro, no interior de São Paulo, em 6 de outubro de 1916, advogado, professor universitário e formado pela Universidade de São Paulo, Ulysses Guimarães fez da política sua principal missão pública. Eleito deputado estadual ainda na década de 1940, chegou à Câmara Federal em 1950 e nunca mais deixou de ser reconduzido ao cargo, construindo uma das trajetórias mais duradouras e influentes da história do Parlamento brasileiro.
Seu nome ficou definitivamente ligado a três momentos centrais da história nacional: a liderança do MDB, principal força de oposição ao regime militar; a condução da campanha Diretas Já, que levou milhões de brasileiros às ruas em defesa das eleições presidenciais diretas; e a presidência da Assembleia Nacional Constituinte, entre 1987 e 1988, responsável pela elaboração da Constituição Federal de 1988, conhecida como Constituição Cidadã.
Embora tenha apoiado inicialmente o movimento político-militar de 1964, Ulysses rompeu posteriormente com o regime autoritário e tornou-se um dos principais líderes da oposição democrática no país. Perseguido politicamente e alvo constante de pressões do regime, manteve-se como uma das figuras mais firmes na defesa das instituições democráticas e das liberdades civis.
A frase “A democracia não se implora, se conquista” tornou-se uma das marcas de sua trajetória pública e passou a simbolizar a luta pela redemocratização brasileira.
Após a tragédia, o ex-presidente José Sarney afirmou que Ulysses representava uma das figuras mais importantes da reconstrução democrática do Brasil e destacou sua contribuição decisiva para a consolidação das liberdades políticas no país.
Comoção nacional e luto oficial.
Nas horas que se seguiram à confirmação da tragédia, o Brasil mergulhou em luto. O então presidente da República, Itamar Franco, decretou luto oficial de três dias e acompanhou os trabalhos de busca no litoral do Rio de Janeiro. Governadores, ministros, parlamentares, representantes de diferentes partidos políticos, artistas, intelectuais e movimentos populares manifestaram pesar pela perda.
Em São Paulo, multidões se reuniram diante da residência de Ulysses Guimarães e da Assembleia Legislativa paulista, deixando flores, mensagens e homenagens. Em Brasília, sessões do Congresso Nacional foram suspensas e bandeiras passaram a ser hasteadas a meio-mastro.
Os principais jornais do país destacaram a morte do político como uma das maiores perdas da história republicana brasileira. Diversos editoriais ressaltaram seu papel decisivo na defesa da democracia e na reconstrução institucional do país após o período militar.
Legado permanente.
Sem que seu corpo fosse encontrado, uma cerimônia simbólica foi realizada no dia 26 de outubro de 1992, no plenário da Câmara dos Deputados, reunindo familiares, autoridades e milhares de pessoas. Durante as homenagens, lideranças políticas destacaram que o legado de Ulysses Guimarães permanecia vivo na Constituição Federal de 1988, nas instituições democráticas e no processo eleitoral brasileiro.
Seu nome passou a denominar ruas, escolas, praças, avenidas e prédios públicos em diversas regiões do país. Mais do que homenagens materiais, porém, sua principal herança permanece associada à consolidação da democracia brasileira. Na promulgação da Constituição de 1988, Ulysses Guimarães afirmou que a nova Carta representava o compromisso do povo brasileiro com a liberdade, a justiça e o futuro.
Décadas após sua morte, sua trajetória continua sendo lembrada como uma das mais importantes da história política nacional e como símbolo permanente da luta pela democracia no Brasil.
Fontes: acervos da Câmara dos Deputados, Senado Federal, Marinha do Brasil, Fundação Ulysses Guimarães e registros da imprensa brasileira da época.
Foto: Agência Brasil/Arquivo
