Uma geração de jornalistas está se despedindo.

A morte de Renato Machado, aos 83 anos, em 16 de julho de 2026, encerra a trajetória de um dos grandes nomes do telejornalismo nacional. Durante mais de quatro décadas, ele esteve presente na televisão e na memória de milhões de brasileiros.

Apresentador, editor-chefe, correspondente internacional e repórter especial, Renato Machado participou de coberturas importantes e ajudou a construir uma maneira de fazer jornalismo que marcou gerações. Para muitos brasileiros, sua presença fazia parte do começo do dia.

Mas sua partida também provoca uma reflexão que vai além da homenagem. Aos poucos, os nomes que ajudaram a construir a história do jornalismo brasileiro vão se despedindo. Entre eles está Afonso Mônaco, repórter conhecido por sua atuação no jornalismo investigativo e por uma carreira que atravessou mais de cinco décadas.

Sua trajetória representa uma época em que o repórter precisava estar na rua, diante dos fatos, acompanhando de perto aquilo que precisava ser contado. Também se foram Cid Moreira, que emprestou sua voz a décadas de televisão; Ricardo Boechat, dono de um estilo direto e inconfundível; Paulo Henrique Amorim, uma das grandes personalidades da comunicação; Joelmir Beting, referência no jornalismo econômico; e Gil Gomes, que criou uma maneira própria de narrar o cotidiano policial.

Entre eles também estão Goulart de Andrade, conhecido por suas reportagens e pelo programa Comando da Madrugada; Alberto Dines, uma das figuras mais influentes da imprensa brasileira; e Eliakim Araújo, que, ao lado de Leila Cordeiro, marcou uma geração do telejornalismo.

Eram profissionais de uma época em que o jornalismo exigia tempo, apuração, experiência e presença. Antes das redes sociais e da constante velocidade da internet, a notícia precisava ser investigada, compreendida e contada.

Para milhões de brasileiros, esses jornalistas não eram apenas profissionais que apareciam na televisão ou eram ouvidos pelo rádio. Faziam parte da rotina: estavam nas manhãs antes do trabalho, nas salas de estar e nos momentos de café.

Muitos cresceram ouvindo essas vozes sem imaginar que, um dia, sentiriam tanta falta delas. Com o passar dos anos, a morte de cada um desses profissionais parece levar consigo um fragmento da memória de um Brasil que se informava de outra maneira.

A morte de Renato Machado nos faz perceber que não estamos apenas nos despedindo de um jornalista. Estamos nos despedindo, pouco a pouco, de uma geração que ajudou a definir a maneira como o país se informava.

Uma geração cuja credibilidade foi construída ao longo de décadas de trabalho, apuração e experiência. Jornalistas que não precisavam transformar tudo em espetáculo para serem ouvidos: bastava-lhes o conhecimento, a presença e a responsabilidade de contar os fatos.

Aos poucos, os chamados jornalistas “raiz” estão indo embora. E, com eles, desaparece também uma parte da televisão, do rádio e da memória afetiva de um país que aprendeu a acompanhar o mundo através de suas vozes.

Renato Machado se vai. Mas seu trabalho e sua história permanecem. Porque alguns jornalistas não apenas informam uma época. Tornam-se parte da memória dela.