A última viagem na velha estação.

Durante muitos anos, uma antiga estação ferroviária continuou ali, mesmo depois que os trens deixaram de passar. Os trilhos enferrujaram. Os bancos ficaram vazios. O relógio parou. Mas as histórias continuaram ali. Histórias de pessoas que chegaram para partir, de outras que partiram sem saber que nunca mais voltariam e de algumas que esperaram por alguém que jamais apareceu.
Certa manhã, surgiu a notícia de que a velha estação seria demolida. Antes que suas paredes desaparecessem, porém, um último trem partiria dali. Seria a última viagem. A viagem de despedida. Quando a escuridão chegou, alguns antigos passageiros retornaram. A Pressa foi a primeira a chegar. Queria embarcar imediatamente, com medo de perder o trem.
A Riqueza apareceu carregada de malas. Tinha tanta coisa para levar que já não sabia o que realmente precisava. A Vaidade ainda procurava seu reflexo nas janelas. A Tristeza permaneceu sentada, olhando para os trilhos. A Alegria caminhava pela plataforma, sorrindo como se nenhuma despedida fosse definitiva. E havia o Amor.
Ele não carregava malas. Levava apenas lembranças, nomes, abraços e tudo aquilo que o tempo não conseguiu apagar. Quando o trem finalmente chegou, todos embarcaram. Alguns correram. Outros hesitaram. Alguns tentaram levar tudo. Outros perceberam que certas coisas precisavam ficar para trás.
O Amor foi o último a entrar. Encontrou um lugar junto à janela e sentou-se ao lado de um homem idoso, de olhar tranquilo. O trem partiu. A velha estação desapareceu lentamente na escuridão. Pela última vez, aquela composição deixou para trás o lugar onde tantas histórias haviam começado.
Depois vieram outras paisagens. Outras estações. Outras despedidas. Durante a viagem, alguns passageiros desceram. Outros embarcaram. Houve pessoas que pareciam destinadas a permanecer para sempre, mas partiram na primeira estação difícil. E houve aquelas que nunca fizeram grandes promessas, mas permaneceram ao lado de alguém durante os trechos mais difíceis da viagem.
O Amor observava tudo em silêncio. Até que olhou para o homem idoso e compreendeu quem ele era. Era o Tempo. O Tempo não havia impedido as perdas. Não havia evitado as despedidas. Também não havia trazido de volta aqueles que haviam descido em outras estações.
Mas havia ensinado o Amor a compreender. Com o tempo, algumas dores deixam de comandar a nossa vida. A saudade continua, mas muda de lugar. A raiva perde força. A decepção se transforma em aprendizado. E aquilo que um dia parecia o fim de tudo pode ser compreendido, com o tempo, como apenas uma estação difícil no caminho.
O Tempo também revela as pessoas. Algumas permanecem enquanto a viagem é confortável, mas desaparecem diante das primeiras dificuldades. Outras nunca prometeram ficar, mas permanecem ao nosso lado quando mais precisamos. É o tempo que, pouco a pouco, separa as palavras das atitudes, as aparências da verdade e aqueles que apenas passam por nossa vida daqueles que realmente escolhem ficar.
A vida é uma viagem de trem. Ninguém conhece todas as estações. Ninguém consegue levar consigo tudo o que gostaria. Algumas pessoas embarcam cedo. Outras chegam quando já pensávamos que a viagem estava quase terminando. Algumas ficam por pouco tempo, mas deixam marcas que permanecem durante anos. Outras permanecem por muito tempo e, ainda assim, nunca chegam a nos conhecer de verdade.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja quantas estações já ficaram para trás. Nem quantas ainda existem pela frente. Talvez seja esta:
𝗤𝗨𝗘𝗠 𝗘𝗦𝗧Á 𝗔𝗢 𝗦𝗘𝗨 𝗟𝗔𝗗𝗢 𝗡𝗘𝗦𝗧𝗔 𝗣𝗔𝗥𝗧𝗘 𝗗𝗔 𝗩𝗜𝗔𝗚𝗘𝗠?
Porque, no fim, a vida não será lembrada apenas pelo destino alcançado. Será lembrada pelas pessoas que encontramos pelo caminho, pelas mãos que seguramos, pelos abraços que oferecemos e pelas vezes em que escolhemos permanecer, mesmo quando seria mais fácil partir.
O trem continua. A paisagem muda. As estações passam. E, enquanto ainda estivermos a bordo, sempre haverá tempo para amar, recomeçar e fazer diferente. Porque a vida não é apenas chegar ao destino. É tudo aquilo que acontece entre uma estação e outra.
Por: Evandro Felix Marcondes.