O que o Porto de Santos e o Copacabana Palace têm em comum?

À primeira vista, o Porto de Santos e o Copacabana Palace pertencem a atividades muito diferentes. Um teve papel central no comércio exterior brasileiro; o outro se tornou um dos hotéis mais conhecidos do país. A ligação entre essas duas histórias está na trajetória empresarial da família Guinle, que participou de importantes empreendimentos no Brasil entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX.

A história começa com a expansão da produção cafeeira em São Paulo. Na segunda metade do século XIX, o crescimento das lavouras no interior paulista aumentou a necessidade de transportar grandes volumes de café até o litoral. Nesse cenário, a construção de uma ligação ferroviária entre o planalto e o porto tornou-se indispensável.

Inaugurada em 1867, a São Paulo Railway, também conhecida como Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, estabeleceu a ligação entre o Porto de Santos, a capital paulista e Jundiaí. A linha atravessava a Serra do Mar por um sistema de engenharia que permitiu superar o desnível entre o litoral e o planalto. Com a ferrovia, o transporte da produção cafeeira ganhou rapidez e capacidade, favorecendo o crescimento das exportações pelo porto.

A modernização das instalações portuárias também se tornou uma necessidade. Em 12 de julho de 1888, o Decreto Imperial nº 9.979 autorizou um grupo de empresários, liderado por Cândido Gaffrée e Eduardo Palassin Guinle, a construir e explorar o Porto de Santos. O contrato inicial previa um prazo de 39 anos, posteriormente ampliado para 90 anos, em novembro de 1890.

A partir dessa concessão, os empresários organizaram a estrutura responsável pelas obras, que deu origem à Companhia Docas de Santos. Em 2 de fevereiro de 1892, foram inaugurados os primeiros 260 metros de cais, na região do Valongo, substituindo parte das antigas estruturas de embarque, como trapiches e pontes. A partir dali, o porto passou a operar com instalações organizadas para atender ao crescente movimento de cargas.

O café estava no centro dessa transformação. A produção que chegava pela ferrovia encontrava em Santos a estrutura necessária para seguir rumo aos mercados internacionais. A atividade portuária consolidou os negócios de Gaffrée e Guinle e contribuiu para a formação de um dos grupos empresariais de maior influência no país.

Eduardo Palassin Guinle morreu em 1912. Seu filho, Guilherme Guinle, já exercia funções de direção na Companhia Docas desde 1914 e ampliou sua atuação nos negócios da família. Cândido Gaffrée morreu em 1919, mas a Companhia Docas continuou sob a influência dos Guinle nas décadas seguintes.

A atuação da família não ficou restrita ao setor portuário. Seus negócios alcançaram áreas como energia, construção e hotelaria. Foi nesse contexto que surgiu o projeto do Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, então capital federal.

A construção do hotel partiu de uma iniciativa de Octávio Guinle, outro filho de Eduardo Palassin Guinle, em parceria com Francisco Castro Silva. O projeto atendia a uma solicitação do presidente Epitácio Pessoa, que desejava dotar a capital de um grande estabelecimento hoteleiro para receber visitantes durante as comemorações do Centenário da Independência, em 1922. O edifício foi projetado pelo arquiteto francês Joseph Gire, mas sua inauguração ocorreu somente em 13 de agosto de 1923, onze meses depois das celebrações.

A relação entre o Porto de Santos e o Copacabana Palace não está em uma ligação direta entre o dinheiro das exportações de café e a construção do hotel. Ela está na trajetória de uma família que ampliou seus negócios ao longo de gerações, passando da infraestrutura portuária a outros setores importantes da economia brasileira.

A concessão da Companhia Docas de Santos chegou ao fim em 7 de novembro de 1980. No dia seguinte, a administração do porto passou ao controle federal, por meio da Companhia Docas do Estado de São Paulo, a Codesp, atual estrutura que deu origem à Autoridade Portuária de Santos.

De um lado, o porto que recebeu a produção cafeeira transportada pela São Paulo Railway. De outro, um hotel construído para atender às ambições de uma capital em transformação. Dois empreendimentos de naturezas distintas, ligados pela história empresarial da família Guinle.